sexta-feira, 26 de março de 2010

Médico fez afirmativas ofensivas sobre profissionais da saúde ao Jornal do Brasil – Final

O PRESIDENTE DO CFM AFIRMOU QUE EXISTEM ALGUNS GESTORES DE SAÚDE QUE ESTÃO SUBSTITUINDO OS MÉDICOS POR OUTROS PROFISSIONAIS DA SAÚDE, TENTANDO ASSIM ENGANAR A POPULAÇÃO. ELE TAMBÉM AFIRMA QUE FISIOTERAPEUTAS E ENFERMEIROS ESTÃO PRESCREVENDO MEDICAMENTOS. O QUE ACHA DISSO?
Gil Lúcio: O presidente do CFM precisa entender a importância do cargo que exerce. O CFM é uma das principais instituições desse país e merece respeito. Os homens públicos de coragem não lançam denúncias ao vento, mas exercem na plenitude a cidadania. Se existe algum gestor que não oferece os serviços médicos a quem necessita, basta o presidente do CFM denunciar o caso ao Ministério Público, o qual agirá prontamente. Lembremos que Saúde é direito de todos e dever do Estado. Agora, culpar um prefeito pelo fato de nenhum médico se interessar em trabalhar em uma região carente é no mínimo injusto. Não temos conhecimento de que algum fisioterapeuta tenha prescrito medicamento. Basta uma denúncia ao Crefito-SP e ele perderá o direito ao exercício profissional. O presidente do CFM deveria ter a coragem de fazer uma denúncia pública ou alternativamente respeitar os profissionais da saúde que trabalham com afinco para socorrer a vida.
QUEM PODE USAR O TÍTULO DE DOUTOR? E OS PROFISSIONAIS DEVEM USAR CRACHÁ?
Gil Lúcio: No Brasil apenas as pessoas que cursam um doutorado reconhecido pelas autoridades governamentais (Capes) possuem título de doutor. Culturalmente, todos os profissionais graduados, incluindo os médicos, intitulam-se “Doutores”, apesar de a maioria absoluta não ter mestrado e muito menos doutorado. Bastaria um acordo entre todos os conselhos para que os profissionais deixassem de usar o título de doutor, a menos que tenham um diploma de doutorado. O que não pode é apenas os graduados em medicina usarem o título de doutor. Os conselhos também poderiam, em comum acordo, obrigar todos os profissionais a usar crachá e um jaleco com o nome de sua profissão. Todos os profissionais da saúde que conheço têm orgulho de suas profissões e amariam adotar essa medida.
O QUE A POPULAÇÃO PODE FAZER PARA SABER SE O FISIOTERAPEUTA OU TERAPEUTA OCUPACIONAL ESTÁ AUTORIZADO PARA EXERCER A PROFISSÃO?
Gil Lúcio: O Crefito-SP disponibiliza em seu site www.crefitosp.gov.br todas as informações sobre os seus profissionais. Basta acessar e digitar o nome completo ou número do Crefito ou RG do profissional. A população precisa entender que é seu direito solicitar todas as informações sobre o profissional que irá atendê-la. O presidente do CFM poderia nos ajudar a conscientizar a população de seus direitos no lugar de disseminar a ideia de que “pobre” não sabe diferenciar um médico de um enfermeiro. Hoje 62 milhões de brasileiros possuem acesso à internet. Quando era engraxate, ainda criança, ficava triste quando ouvia alguém dizer que pobre não sabe se defender. Acho que a inteligência do outro merece mais respeito.

O SUS TEM ALGUNS BILHÕES PARA RECEBER PELO ATENDIMENTO QUE FAZ A PACIENTES QUE TÊM PLANO DE SAÚDE. O QUE FAZER PARA ESSE RESSARCIMENTO ACONTECER?
Gil Lúcio: É apenas uma questão de vontade política e de cidadania. Se o Governo quisesse, já teria cobrado a conta há muito tempo. Por outro lado, a recusa em coletar dinheiro público é ato de improbidade administrativa. Então, o que eu e você estamos esperando, como cidadãos, para obrigar o Governo a agir? No pacto constitucional que assinamos com o eleito, fica estabelecido que ele irá nos cobrar impostos, mas também prestará serviços, entres eles os de saúde. Como os serviços são de baixa qualidade, o contribuinte tem que comprar um plano de saúde. Portanto, ele é onerado duplamente. Assim, o correto seria as seguradoras devolverem esse dinheiro ao contribuinte que compra o plano de saúde. No entanto, para isso é necessária uma lei federal. 
QUAL É O RELACIONAMENTO DOS PLANOS DE SAÚDE COM OS PROFISSIONAIS?
Gil Lúcio: A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi criada para administrar os interesses do usuário, dos profissionais e das seguradoras de saúde. No entanto, ela tem arbitrado sempre favorável aos interesses dos planos de saúde. Várias seguradoras mantêm os fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais trabalhando com contratos sem reajuste há 10, 15 anos. Para solucionar essas assimetrias, precisamos aprovar uma lei federal que obrigue a ANS a definir os honorários dos profissionais e toda a cobertura que os planos de saúde, individuais ou corporativistas, devem oferecer. Assim, poderemos colocar fim aos abusos.
O SENHOR ACREDITA QUE O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO TEM FEITO UM BOM TRABALHO DIANTE DA EXPANSÃO DOS CURSOS DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL DE BAIXA QUALIDADE?
Gil Lúcio: Pulamos de menos de 40 para mais de 500 cursos de graduação em menos de duas décadas. As vagas que o MEC está fechando são vagas ociosas. É preciso responsabilidade e ousadia política para fechar as vagas de baixa qualidade. Deixar um aluno frequentar um curso de baixa qualidade é enganar o contribuinte. Ele sai com o canudo debaixo do braço, mas provavelmente jamais achará emprego em sua área. Se é para apresentar números ao eleitor, então é preferível levar todo mundo que terminou o colégio para fazer uma graduação em conhecimentos gerais. Depois dessa formação, o candidato prestaria uma prova para cursar uma graduação profissional.

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