sexta-feira, 19 de março de 2010

Médico fez afirmativas ofensivas sobre profissionais da saúde ao Jornal do Brasil – Parte 2

CASO O PROJETO DE LEI NÃO SEJA APROVADO, OS PROFISSIONAIS DA SAÚDE PODERÃO CRIAR DIFICULDADE PARA QUE OS PACIENTES TENHAM LIVRE ACESSO AOS MÉDICOS?
Gil Lúcio: Hoje o paciente pode escolher consultar qualquer profissional da saúde sem que tenha que pedir permissão ao presidente do CFM. Isso ocorre porque perante a Constituição Federal somos livres para ir e vir. Portanto, o presidente do CFM jamais conseguirá afrontar as garantias individuais sacramentadas na Constituição Federal. Neste contexto, a afirmação do presidente do CFM de que os fisioterapeutas não querem que os pacientes vão aos médicos é no mínimo uma irresponsabilidade. Não existe no Brasil nenhum relato de que alguém tenha impedido uma pessoa de consultar livremente um médico.
O PROJETO DE LEI AFETA O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO DA SAÚDE?
Gil Lúcio: Não acredito. Os cientistas possuem autonomia para pesquisar qualquer área desde que tenham a autorização de um comitê de ética. Porém, o avanço científico apenas comprova a reprovação da sociedade a investidas corporativas. Veja, devemos os maiores avanços na área de diagnóstico aos biólogos moleculares. Não é por outra razão que os três Prêmios Nobel em medicina de 2009 são biólogos. Eles estão demonstrando que doenças classificadas como pertencentes a diferentes grupos possuem na verdade um mesmo defeito molecular. Em um futuro breve teremos que reaprender, com os biólogos, a fazer diagnóstico se quisermos identificar realmente o fator causal de uma doença.
NO QUE O PROJETO DE LEI AFETA OS SERVIÇOS DE SAÚDE E EM ESPECIAL O SUS?
Gil Lúcio: Na teoria o SUS é um sistema muito bom. Porém, na prática, o Governo Federal realiza um bilhão de consultas médicas, as quais geram meio bilhão de exames e toneladas de medicamentos. O médico sem uma carreira de estado e com falta de controle gerencial gasta em média cinco minutos em uma consulta. Nesse tempo é impossível fazer qualquer tipo de diagnóstico e assim as consultas são substituídas por guias de solicitação de exames. Desta forma, o SUS se transformou em uma grande indústria da doença. No lugar de cuidarmos das pessoas, estamos gastando uma fortuna com exames e medicamentos desnecessários. Hoje temos 50 milhões de portadores de doenças crônicas e ainda vivemos uma década a menos do que poderíamos. Essa triste realidade ainda ocorre apesar dessa grande cobertura e de ainda sermos jovens. Existem hoje no Brasil 30 mil equipes de saúde da família, compostas por médicos, enfermeiros e agentes comunitários. Precisamos de 90 mil equipes da família para atender os 190 milhões de brasileiros. Basta o Estado ampliar essa oferta e incluir nessas equipes os profissionais da saúde para fazermos uma revolução no atendimento. Além de resolver um grave problema de desemprego no setor, essa medida custará muito menos aos cofres públicos e ajudará a alcançarmos uma vida prolongada com saúde e produtividade.
MAS O PROJETO DE LEI IMPEDE QUE OS PROFISSIONAIS DA SAÚDE PRESTEM OS SEUS SERVIÇOS NO SUS?
Gil Lúcio: O projeto de lei na forma como está apenas irá disseminar o ódio onde é necessário prevalecer o entendimento e a paz. Para vacinar uma criança, por exemplo, o enfermeiro terá que exigir da família uma consulta médica autorizando-o a aplicar a injeção. Os terapeutas ocupacionais terão que deixar de fazer próteses e órteses. Nas unidades de terapia intensiva, os fisioterapeutas terão que pedir autorização de um médico para manter o paciente respirando. Um biólogo ou biomédico, mesmo sendo um Nobel em medicina, não poderá fazer um laudo de um exame. Os milhões de brasileiros que vivem na periferia, nas imensas regiões rurais e no interior, estão sem médicos. Como proibir uma enfermeira de fazer um parto nessas localidades pela simples razão de que a maioria dos médicos prefere trabalhar nos grandes centros urbanos? Os profissionais da saúde, mesmo ganhando muito menos que os médicos, querem trabalhar nesses locais. O Estado não pode impedir a população de ter a assistência daqueles que querem socorrer a vida em sua área de especialidades. O projeto de lei engessa o SUS ao obrigá-lo a ofertar primeiro a consulta médica para só depois liberar o paciente para o tratamento com os demais profissionais da saúde.  

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