sexta-feira, 19 de março de 2010

Médico fez afirmativas ofensivas sobre profissionais da saúde ao Jornal do Brasil – Parte 1

O presidente do Conselho de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Estado de São Paulo (Crefito-SP), Prof. Dr. Gil Lúcio Almeida, responde (leia abaixo) às opiniões ofensivas sobre as profissões da saúde emitidas pelo presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Dr. Roberto d Ávila, em entrevista ao Jornal do Brasil On line. Leia também o artigo de Prof. Gil publicado na versão impressa do Jornal do Brasil, de 11 de janeiro, em resposta ao presidente do CFM.


O PRESIDENTE DO CFM, ROBERTO D ÁVILA, ALEGA QUE LIDERANÇAS DE ALGUMAS PROFISSÕES DA ÁREA DA SAÚDE TÊM INTERESSE EM QUE NÃO HAJA REGULAMENTAÇÃO DA MEDICINA. COMO É ISSO?
Gil Lúcio: Em primeiro lugar os Conselhos Federal e Regionais de Medicina foram criados em 1951 por força de uma lei federal. Desde então, O CFM já editou quase 2 mil resoluções e os Regionais já usaram milhares de vezes o poder de polícia para punir o exercício ilegal ou a má prática da medicina. Assim, a medicina no Brasil está de direito e de fato regulamentada há aproximadamente 60 anos. O Projeto de lei em debate objetiva regrar novos atos privativos dos médicos. Os conselhos de saúde sempre apoiaram o direito dos médicos de ter seus atos privativos definidos em lei. Escrevi dois artigos com o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo defendendo o direito de todos os profissionais de terem seus atos estabelecidos em lei.
MAS PARA O CFM O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO DAS DOENÇAS SÃO ATOS PRIVATIVOS DOS MÉDICOS.
Gil Lúcio: Existem no Brasil 14 profissões regulamentas da saúde. Para adquirir as habilidades e competências (estabelecidas pelo Ministério da Educação) dessas profissões para fazer os diagnósticos e os tratamentos das doenças, uma pessoa teria que estudar 60 anos. Como admitir que um médico estabeleça um tratamento em uma área que ele não conhece? Como admitir que um profissional atenda um paciente se ele não souber sequer identificar os principais sinais e sintomas da doença? No lugar de transformar os profissionais da saúde em técnicos, precisamos torná-los mais profissionais a cada dia. Para preservar os interesses dos pacientes é necessária uma legislação que puna rigorosamente a má prática dos profissionais em suas respectivas áreas de atuação. Delegar aos médicos o exercício de atos para os quais eles não possuem treinamento é instalar o caos e a irresponsabilidade nos serviços de saúde pública do Brasil. Foi exatamente pensando nos interesses da vida que os conselhos de saúde do Estado de São Paulo, incluindo o de medicina, celebraram um termo de compromisso em que cada profissão iria respeitar o direito da outra de realizar o diagnóstico, tratamento e prognóstico, em suas respectivas áreas de atuação. O Roberto d Ávila quer implantar no Brasil o que deu errado em Portugal. Como a lei daquele país deu aos médicos com exclusividade as prerrogativas de diagnosticar e prescrever tratamento das doenças, as profissões da saúde não se desenvolveram e hoje Portugal importa profissionais do Brasil.

NO BRASIL, QUANDO UMA PESSOA FICA DOENTE E VAI AO PRONTO-SOCORRO É O MÉDICO QUEM FAZ O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO DA DOENÇA?
Gil Lúcio: Na presença de qualquer dor ou mal-estar súbito a pessoa deve procurar sempre o pronto-socorro. Lá ela encontrará uma enfermeira que irá fazer uma primeira triagem para verificar a gravidade do caso e encaminhá-la para um médico. Nesses casos os pacientes devem seguir à risca as determinações do médico. A maioria das doenças (i.e., câncer, diabetes, disfunções cardiovasculares, obesidade) que afligem a humanidade possui várias causas. Cada profissional da saúde é treinado para analisar parte dessas causas. Não é por outra razão que nos prontos-socorros, enfermarias e unidades de terapia intensiva dos mais modernos hospitais do Brasil e do mundo existe sempre uma equipe multidisciplinar de saúde. No entanto, quatro em cada cinco pacientes são portadores de doenças crônicas. Isto quer dizer que já passaram por vários especialistas, clínicas e hospitais e continuam sofrendo. Para esse grupo que consome a maioria dos recursos em saúde, a solução está na disponibilização dos serviços dos profissionais da saúde e não em pilhas de exames e caixas de remédios.

Continua…

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