quarta-feira, 18 de março de 2009

Células-tronco para os rins

Os portadores de insuficiência renal crônica podem ter, dentro de alguns anos, uma opção de tratamento capaz de aumentar o funcionamento dos rins.

Após introduzir células-tronco retiradas da medula óssea de ratos saudáveis em outros com insuficiência renal, pesquisadores paulistas detectaram que a técnica gerou uma reversão do quadro da doença. Se resultados similares forem obtidos em humanos, o método poderia dispensar a diálise.

Os resultados do estudo, realizado por uma equipe da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foram aceitos para publicação na revista Stem Cells. “Existem muitos estudos sobre células-tronco, mas nenhum ainda havia sido feito no tratamento de insuficiência renal crônica”, afirma a médica Lúcia Andrade, da Faculdade de Medicina da USP.

Andrade e sua equipe induziram a insuficiência renal em ratos por meio da retirada de um rim inteiro e dois terços do outro, reduzindo a função renal dos roedores para 20% — o que, em um humano, equivaleria à necessidade de diálise. A diálise é um processo de filtragem artificial de substâncias indesejáveis no sangue que os rins já não conseguem mais filtrar, como a ureia.

Cento e vinte dias após a introdução das células-tronco da medula óssea de animais saudáveis, a equipe detectou um aumento de 30% na função renal das cobaias com insuficiência renal induzida.

“Um ser humano com 50% de função renal não necessita de diálise”, afirma a médica. “Ele teria uma vida normal, com uma dieta específica e medicamentos para controle da doença.”

Segundo Andrade, as células-tronco melhoram a função renal porque migram para o tecido lesionado e liberam tanto substâncias inibidoras dos agentes inflamatórios responsáveis pela insuficiência renal quanto elementos que induzem a regeneração das células do rim.

“Muitos acreditam que as células-tronco migrem para o tecido, diferenciem-se em células específicas e assim o regenere”, explica a médica. “Mas, de acordo com nossos estudos, acreditamos que o mecanismo de ação das células-tronco seja mais imunológico que regenerativo”, defende.

Quatro grupos...
No estudo conduzido por Andrade, foram utilizados quatro grupos de 10 ratos: um sem sofrer qualquer intervenção; outro com a capacidade renal reduzida, mas sem receber tratamento; outro que recebeu uma aplicação de células-tronco no 15º dia após a retirada dos rins; e outro que recebeu três aplicações quinzenais, também a partir do 15º dia.

Não foi detectada qualquer diferença entre os grupos que receberam uma ou três aplicações, e a função renal do grupo que não recebeu tratamento permaneceu em 20%. “Isso indica que o importante não é a quantidade de células, mas o seu tipo”, ressalta Andrade.

O grupo pretende agora verificar se o tempo em que a aplicação é feita influencia os resultados. “Como a maioria dos pacientes com insuficiência renal crônica começa a receber tratamento em estágios mais avançados da doença, queremos simular essa situação com ratos”, explica a médica.

Além disso, Andrade e sua equipe testarão este ano a aplicação de células-tronco em cães e gatos com a doença. Estudos como esse são fundamentais para viabilizar no futuro a aplicação de células-tronco em seres humanos com insuficiência renal crônica. Apesar de promissor, no entanto, esse ainda é um horizonte relativamente distante.

“Precisamos ter mais segurança na administração das células-tronco e na sua caracterização”, ressalva Andrade.

“Elas podem migrar para outros tecidos que não o desejado, e há casos em que se diferenciam em células cancerosas”, atenta.

Por dentro dos novos tratamentos com células-tronco - Parte 7

Fígado
A capacidade das células-tronco adultas de regenerar o fígado, órgão mais disputado nas filas de transplantes brasileiras, está sendo testada num estudo realizado pela Universidade Federal da Bahia e pelo Hospital São Rafael, em Salvador. Os pacientes sofrem de cirrose hepática, destruição das células do fígado causada pelo vírus da hepatite C ou pela ingestão excessiva e prolongada de álcool. As células de dez pacientes foram extraídas da medula e levadas por um cateter até o fígado. Segundo os pesquisadores, a inflamação do fígado – característica da cirrose – foi reduzida.

Outros 30 pacientes foram submetidos à técnica até fevereiro deste ano. O objetivo desta vez é analisar a eficácia do tratamento. Assim como no primeiro estudo, os resultados foram positivos e devem ser publicados no segundo semestre. Apesar da melhora, ninguém se livrou da fila de transplante de fígado. “O objetivo do procedimento era aumentar a sobrevida dos pacientes”, diz Ricardo Ribeiro dos Santos, um dos coordenadores do estudo. “No Brasil, menos de 10% dos pacientes costumam sobreviver a tempo de conseguir um órgão, numa espera de até quatro anos.”

No futuro, os pesquisadores acreditam ser possível tirar portadores de cirrose da fila de transplantes. “Não tenho dúvidas de que um dia as células-tronco vão evitar transplantes”, diz Santos. Mas ele não acredita que isso ocorrerá usando os métodos empregados até agora. Ele aposta em experiências com um tipo de célula-tronco adulta conhecida como mesenquimal, cuja capacidade de transformação em diferentes tecidos é superior à da célula-tronco usada atualmente, chamada hematopoética.

As limitações da técnica:
- Os pacientes não se livraram da fila de transplante de fígado.
- Não se sabe como pacientes em estágios iniciais de cirrose reagiriam à terapia.